quinta-feira, 29 de setembro de 2011

4 - Nacionalismo no século XIX

O incidente na Noruega e a ascensão dos movimentos de extrema direita

No final do  mês  de  julho a população  norueguesa  vivenciou atos  de  extrema  violência empreendidos  em dois locais  diferentes do  país.  Essa ação destaca mais um problema que a Europa vem sofrendo recentemente, a ascensão dos movimentos de extrema direita.  Dentre as fragilidades que assolam o contexto europeu, tem se dificuldades econômicas, problemas relacionados à migração e ao multiculturalismo, à preocupação com a segurança do continente, e à prevenção contra ataques terroristas.  Embora as suspeitas no imediato pós atentado tenham induzido a imprensa e representantes europeus de que os atos poderiam ter sido cometidos por radicais islâmicos, a origem do autor dos atos e o alinhamento do mesmo à defesa  de  ideais de  extrema  direita  trazem  um agravante para o  conjunto  de  problemas  á  vividos pela Europa atualmente.
Na sexta-feira  22  de  julho  de  2011,  a população  norueguesa  foi  surpreendida com o duplo atentado no país. O primeiro desses  foi  destinado  à  sede  do  Governo Norueguês, em Oslo, enquanto o segundo aconteceu  na  Ilha  de  Utoya,  contra  jovens do  Partido  Trabalhista  que  lá  se  reuniam. O  autor  desses  atos,  Anders  Behring Breivik,  causou  aproximadamente  76  óbitos  e  deixou  pelo  menos  97  feridos. Brevik é um  militante  pertencente  a movimentos  de  extrema  direita, movimento  que  defende  ideais  xenófobos e  nacionalistas,  e  é  avesso  às  questões relativas a imigração na Europa. De acordo  com  Breivik,  as  mortes causadas  poderiam  ser  justificadas  por uma  imagem  de  uma  Europa  que  estaria ameaçada  pelo  multiculturalismo  político e  pelo  islã,  ou  se a,  a  convivência  entre diferentes culturas, e principalmente entre europeus  islâmicos  não  seria  tido  como algo natural e aceitável os quais poderiam deformar  ou  ainda  subjugar  a  cultura européia.  Brevik  ainda  mencionou  em seus discursos que o multiculturalismo na sociedade  européia  não  seria  algo possível.  Em  função  dessa  possível ameaça  à  cultura,  Brevik  usava argumentos  antiislamistas  que  visavam  à libertação  da  Europa  de  imigrantes,  até 2083  por  meio  de  seu  Manifesto  “Uma Declaração  Européia  de  Independência”, de 1500 páginas. Breivik  cita  em  seu  Manifesto  Geet Wilders,  líder  do  Parti   Voor  di  Vri Heidi (PVV),  partido  que  também  defende  uma não  islamização  da  cultura  europeia.  Não obstante,  como  defende  Wilders  ao  ser entrevistado 3 pela Elsevier,  agência holandesa  de  notícias,  Breivik  não  teria nenhum  envolvimento  formal  com  o partido  e  o  PVV  embora  tenha  princípios atiislamistas,  busca  formas  de  negociação que  não  utilizam  a  força  e  a  violência.

Vê se  que  mesmo  na  Noruega,  tomado como  um  país  portador  de  alta  qualidade de  vida  e  de  significativos  níveis  de distribuição  de  renda,  surgem movimentos  políticos  de  extrema  direita que  contestam  o  regime  democrático liberal vigente. 
O  país  que,  comparativamente  ao  grupo dos  PIIGS 6 ,  tem  passado  imune  pela  atual crise  na  zona  do  euro,  sofre  deste fenômeno  que  vem  se  potencializando  na Europa  nos  últimos  anos:  a  ascensão  de movimentos  de  extrema  direita,  o que desvincula  esta  ascensão  da  crise econômica.  A  questão  neste  ponto  é  que esse  tipo  de  movimento  vem  geralmente acompanhado  de  ideais  de  xenofobia  e eugenia e,  somado  a  isso,  se  percebe  na Europa certo nível de compartilhamento e apoio  a  esses  ideais.  Pode se  ilustrar  esta situação  a  partir  da  afirmação  de  um taxista  norueguês,  que  ao  ser  entrevistado pelo  jornal  El País  deixou  claro  suas convicções  estereotipadas  ao  afirmar  estar inconformado por  Breivik  ter  matado " jovens  brancos  e  noruegueses".  Ainda segundo  o  taxista:  “Se  (Breivik)  odiava tanto  o  Islã,  que  matasse  jovens muçulmanos  ou  negros”.  É  pertinente
acrescentar  que  o  taxista  é  eleitor  do Partido  do  Progresso,  a  extrema  direita
norueguesa  o qual  Breivik  foi  militante.  O partido,  nas  eleições  de  2009,  conquistou 614  mil  votos  (23%  do  total),  o  que demonstra  a  significância  desta  corrente no país. A  despeito  do  caso  Norueguês,  esta ascensão  também  encontra  solo  fértil  em situações  nas  quais  as  demandas populares  não  são  correspondidas,  como no  caso  de  crise  econômica  e  da conseqüente  crise  social advinda  das políticas de austeridade.8  O que se percebe é  a  gradativa  construção  ideológica  no continente  de  uma  Europa  essencialmente nativa,  livre  do  estrangeiro  que  “suga recursos  do  continente”.  A  figura  do nativo  acaba  por  servir  de  depósito  para as  frustrações  econômicas  e  sociais europeias.    Apoiado também  no  discurso do  continente  tomado  como  um  ambiente eminentemente  católico,  conforme afirmado  por  aqueles  troncos  políticos denominados  por  vezes “Fundamentalismo  Cristão”,  diversos cursos  de  ação  são  adotados,  como  por exemplo,  o  embargo  da  entrada  da
Turquia  na  UE  realizado preponderantemente  por  partidos  de direita  de  países como  Alemanha  e França 9 .  Assim  percebe se  que,  ainda  que se a  uma  parcela reduzida,  este  grupo extremista  vem  gerando conseqüências  na Europa,  estas  por  vezes  nefastas  como  no incidente  da  Noruega,  uma  vez  que  seu executor  justificou  sua  ação  em  ideais  de
extrema direita. No  caso  da  Alemanha  é  pertinente  a atenção  à  presença  do  Partido  Nacional Democrata Alemão (NPD) na vida política do  país.  O  partido  Neo Nazista  se  apóia no modelo da Terceira Via 10  e considera os indivíduos  como  seres  desiguais  que  são produtos de seus ambientes. O  NPD  vem  assim  conquistando  adeptos. As  manifestações  pacíficas  que  acontecem no  país reúnem a  cada  ano  uma  frente mais numerosa. A passeata de aniversário do  Bombardeio de  Dresden  na  Segunda Grande  Guerra,  iniciada  em  2005  com  12 pessoas, contou  com  uma  comitiva  de 6.000  pessoas  em  2009.  Outro  sinal  da difusão  do partido  pelo  país  foram  as eleições  de  2004,  que,  contrariando  o  seu passado de  baixos  índices,  atingiu  uma porcentagem  de  9,2%,  (acima  dos  5%
necessários  nas  eleições  federais  para  a nomeação  de  um  delegado  do partido para  o  parlamento  alemão)  o  que possibilitou  ao  NPD  encaminhar  oito representantes  ao  parlamento.  Não    no âmbito  do  Estado  como  também  no continente,  partidos  com  este  tipo  de afinidade,  ainda  que  pequenos,  são representativos  na  esfera  política.  Além disso,  o  que  normalmente  tem  ocorrido são  coligações  entre  esses  partidos  de extrema  direita  e  aqueles  de  direita,  o que potencializa  o  engajamento  e representatividade  destes  partidos extremistas.

Considerações Finais
Este atentado, ainda que localizado, realça o  processo  de  fortalecimento  dos  regimes de  extrema  direita  na  Europa.  O  conjunto dos fatores citado, tais como a tolerância a posições  xenofóbicas,  as  manifestações fundamentalistas  e  crises  econômicas, vem  de  fato  contribuindo  para  o fortalecimento  dos  movimentos  de extrema direita.Ademais,  esse  duplo  atentado  evidencia que  enquanto  as  preocupações  com  a segurança  europeia  estavam  voltadas  às questões  terroristas  islâmicas,  as  ações  da extrema  direita  ultranacionalista passaram,  de  certo  modo,  a  ser negligenciadas.  Como  exemplo  disso,  no Relatório  de  2010 elaborado  pela  Europol, a  preocupação  dominante  se  referia  aos radicais  muçulmanos  que  poderiam ameaçar  o  continente.  Em  contrapartida, questões  relativas  à  extrema  direita apareciam  somente  em  uma  parte  do documento,  demonstrando  uma relevância  inferior  quando  comparado  à ameaça islâmica. 
Sendo  assim  fica  evidente  a  necessidade do  abandono  dos  estigmas  e  estereótipos para  com  muçulmanos.  Ainda  que existam  muçulmanos  da  linha  radical,  da mesma  forma  existem  militantes  radicais de extrema direita,  sendo esses frutos não do islamismo, mas sim da própria Europa. Além  do  mais,  a  atual  conjuntura  é  solo fértil  para  o  desenvolvimento  destes movimentos:  com  a  facilidade  de  troca  de informações  os  grupos  fundamentalistas têm  grande  capacidade  de  se  relacionar  e trocar  informações  entre  suas  diferentes células,  de  forma  que  um  evento  como  o ocorrido  na  Noruega  pode  servir  de inspiração  para  outros  do  mesmo  tino.  E ainda  que  os  partidos  se  mostrem  contra este tipo de ação fanática, os que realizam estes  atos  geralmente  se  apóiam  nestes partidos  extremistas.  Por  fim,  é  válido afirmar  que  não  cabe  uma  generalização mono causal do que gera este processo. As diversas  variáveis  demonstram  a complexidade  do  assunto  e  a  conseqüente necessidade de estudo do mesmo. 

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